Pensar, sentir e a pressa em julgar

“Pensar é difícil, por isso a maioria das pessoas prefere julgar.”
A frase, atribuída a Carl Gustav Jung, um dos grandes teóricos da Psicologia, provoca uma reflexão bastante atual. Vivemos em uma sociedade onde os julgamentos parecem cada vez mais rápidos, frequentes e automáticos.

Mas pouco se fala sobre quem julga.
Quem é essa pessoa? O que a leva a agir assim? Por que o olhar para o outro vem antes do olhar para si?

Talvez porque se perceber seja difícil. Talvez porque reconhecer os próprios sentimentos exija coragem. Em uma sociedade adoecida, olhar para fora costuma ser mais fácil e menos doloroso do que olhar para dentro.

Você já parou para pensar na dificuldade que tem em identificar e validar aquilo que sente?
Essa pergunta pode causar certo incômodo. Afinal, ao nos aproximarmos dos nossos sentimentos, muitas vezes nos damos conta de que não somos exatamente quem imaginávamos ser e, menos ainda, quem gostaríamos de ser.

Desde cedo, aprendemos a nos afastar do sentir.
Meninos não choram. Meninas precisam estar bonitas, sorridentes e bem-comportadas. Aos poucos, vamos criando personagens aceitáveis, máscaras que facilitam o pertencimento, mas que nos afastam da nossa experiência emocional mais genuína.

Crescemos assim.
Adultos habilidosos em esconder o que sentimos, mas rápidos em julgar quem ousa viver sem essas máscaras. Muitas vezes, aquilo que criticamos no outro, toca justamente nos nossos medos mais profundos, aqueles que evitamos encarar.

Talvez, além da dificuldade de pensar apontada por Jung, estejamos vivendo também uma dificuldade de sentir. E, quando sentir se torna ameaçador, o pensamento tende a se automatizar em categorias rígidas: certo ou errado, bom ou ruim, forte ou fraco.

Mas e se existir um meio termo?
Um espaço onde o sofrimento seja menor e as verdades possam a ser mais amplas, mais humanas e mais respeitosas?

Esse caminho existe. No entanto, buscá-lo implica atravessar sentimentos que ficaram guardados por muito tempo. Dores, amores, frustrações e desejos que, até então, permaneciam no lugar mais íntimo do Ser.

Nem sempre esse acesso é simples e, muitas vezes, ele somente vai acontecer com o auxílio da psicoterapia. Quando isso ocorre, a pessoa pode encontrar respostas mais honestas para suas perguntas, repensar sua existência de forma mais plena.

Sentir não elimina o pensar.
Ao contrário: amplia. Humaniza. Aproxima.

E talvez, ao nos permitirmos sentir com mais verdade, possamos julgar menos e compreender mais. A nós mesmos e ao outro.

* Adaptado do texto inicialmente publicado no Jornal Bom dia, em 5 de outubro de 2018

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