E se Fosse Você com Alzheimer? Um Olhar Humano Sobre Memória, Identidade e Cuidado

Muito se fala sobre o Alzheimer, mas pouco se fala sobre os sentimentos envolvidos nessa patologia que tanto assusta. Então, proponho um exercício simples: colocar-se, por um instante, no lugar da pessoa da sua família que está vivendo essa realidade.

Pare por um momento e pense em uma das suas lembranças mais queridas da infância. Pode ser a sua comida favorita, os amigos com quem brincava, os rostos da sua família naquela época ou algum momento especial que marcou sua história.

Conseguiu lembrar?
Provavelmente essas memórias despertaram uma sensação de nostalgia e fizeram você acessar uma parte da sua própria história que talvez estivesse adormecida.

Agora imagine que, aos poucos, essas memórias começam a desaparecer.
Como você se sentiria?
E se, junto com essas lembranças, você começasse também a se perceber cada vez menos útil para as pessoas ao seu redor e até para si mesmo?
O que restaria de quem você sempre acreditou ser?

O Alzheimer faz exatamente isso: aos poucos, a pessoa vai perdendo partes da sua própria identidade. Nas fases iniciais da doença, esse processo pode ser ainda mais delicado, especialmente pela forma como a família reage.

Muitas vezes, na tentativa de proteger ou poupar quem está doente, os familiares acabam retirando gradativamente a autonomia da pessoa. Pequenas decisões deixam de ser consultadas, atividades deixam de ser estimuladas, escolhas deixam de ser respeitadas.

Essa atitude quase sempre nasce do cuidado e da intenção de ajudar. No entanto, sem perceber, podemos estar contribuindo para acelerar um processo que a própria doença já impõe: o de descaracterizar, pouco a pouco, alguém que ainda está ali, sentindo, percebendo e tentando manter viva a sua história.

Que possamos ser memória, presença e afeto, mesmo quando as palavras já não vêm.

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