
Ao longo dos anos de escuta clínica, uma realidade dolorosa insiste em aparecer. Quase sempre silenciosa. Muitas vezes invisível para quem está de fora.
Ela atravessa diferentes idades, histórias e contextos. Surge em sintomas difíceis de nomear, medos que parecem não ter explicação, desconfortos persistentes, sonhos recorrentes, lembranças fragmentadas ou emoções intensas que nem sempre encontram palavras.
Há dores que permanecem caladas por décadas, moldando escolhas, vínculos, inseguranças e formas de existir no mundo. Muitas pessoas convivem, por anos, com o medo de falar. Medo de não serem acreditadas. Medo de serem culpabilizadas. Medo de desorganizar a própria família. Ou até de reviver algo que passaram uma vida tentando esquecer.
E, infelizmente, quando a coragem finalmente aparece, nem sempre ela encontra acolhimento.
Talvez porque outras dores também tenham sido silenciadas antes. Talvez porque existam histórias que nunca puderam ser contadas. Isso não justifica a falta de escuta, mas nos convida a refletir sobre o quanto certos sofrimentos foram naturalizados ao longo do tempo, atravessando gerações em silêncio.
Em muitos casos, é somente no espaço psicoterápico, depois de um longo percurso de sofrimento, que algumas vivências começam a emergir. Às vezes de forma fragmentada, às vezes acompanhadas de culpa, confusão ou medo. São histórias de abusos sexuais vividos na infância, experiências que ficaram guardadas por anos, mas que continuam ecoando na forma como alguém se relaciona consigo mesmo, com o próprio corpo, com a sexualidade, com os afetos e com a confiança no outro.
Por isso, falar sobre proteção à infância e educação sexual não deveria provocar desconforto, mas senso de responsabilidade coletiva. Ensinar uma criança sobre limites do corpo, consentimento, cuidado e segurança não significa antecipar algo para o qual ela não esteja pronta. Significa oferecer linguagem, proteção e possibilidade de reconhecimento. Porque uma criança que consegue identificar quando algo não está bem tem mais chances de pedir ajuda e de ser protegida.
O silêncio protege a violência. A informação, quando oferecida com cuidado e responsabilidade, pode proteger uma infância inteira.